Meu primeiro emprego canadense

Procurar emprego não é divertido.

Quando a gente é imigrante, os terroristas e especialistas sempre vêm opinar, claro! Mais do que qualquer coisa, eles estão preocupados em te afirmar com toda a certeza do mundo que imigrante é aquele enfermeiro com mestrado que vai pra outro país trabalhar como empacotador de supermercado. Segundo eles, nós, com sorte, estaríamos lavando pratos em 1 ano!

Acreditanto nisso, a gente mandou nosso currículo pra várias vagas aleatórias, o que eles chamam aqui de “survival jobs” que seriam empregos que garantem apenas a tua sobrevivência, provavelmente sem benefícios e sem grandes luxos. Afinal de contas, meu diploma da UFPel e um pedaço de papel higiênico seria a mesma coisa.

Pra nossa sorte, ninguém ligou.

Foi em uma dessas empreitadas que nós visitamos o Employment Centre da cidade em que estávamos e preenchemos todo um cadastro pra que as pessoas desse serviço especializado em encontrar empregos pudessem nos dizer o que diabos estávamos fazendo de tão errado!

O pessoal do employment centre era muito atencioso e legal, mas não conseguiu nos ajudar muito porque, ao menos lá em Brockville, eu acho que o foco deles não é mão de obra especializada e essa coisa de trabalhos aleatórios não estava encaixando no nosso perfil.

Aqui entra a sorte, o acaso, Deus, karma ou o nome qualquer que vocês quiserem dar.

Nos seus 23 anos por aqui, o arquiteto VM nunca tinha entrado no prédio do Employment Centre. Mas, naquele dia de Dezembro, ele pensou com ele mesmo: “Vou ter muitos desenhos chegando em Abril, será que alguém registrado no Employment Centre sabe usar o AutoCAD?”.

E aí ele me achou.

Quando esse arquiteto me encontrou, a gente descobriu o que estávamos fazendo de tão errado: basicamente, TUDO!

A primeira coisa infinitamente errada era o modelo do nosso currículo. Os currículos aqui têm muita informação em uma página. Não importa se tu tens 20 anos de experiência, o teu currículo continua com uma página. Se eles quiserem saber detalhes, vão perguntar na entrevista.

Esse currículo de uma página pode conter links pra exemplos de trabalho e cartas de referência, mas esses ítens só devem ser anexados se forem pedidos ou relevantes pra vaga.

Eu, por exemplo, trabalho com desenho. Esse arquiteto disse que, no meu caso, entregar um currículo sem um link pra um portfolio era perda de tempo, pois as pessoas estariam interessadas em saber como eu desenho, não interessando se eu tinha PDH em microbiologia cerebral das alfafas raras do Hawaii. Eles só queriam ver meus desenhos. Ele também queria me ajudar a achar uma vaga full time, já que ele só poderia me oferecer trabalhos aleatórios que pagariam por projeto e ele sabia que não seria o ideal pra mim. Mas, se eu não encontrasse algo, o trabalho com ele estaria garantido (e era divertido porque eu podia fazer de casa).

Uma outra coisa que vale ressaltar: Esse arquiteto que me achou, assim como 99.9999% da população do Canadá, também era imigrante (da Guatemala) e eu acredito que todo mundo que passou pelo momento que eu estava passando de procurar o primeiro emprego em terras Canadenses tinha uma certa empatia maior com o meu caso.

Eu digo isso porque, eu fui entregar o currículo um dia em uma loja de móveis e a mulher, que era nascida no Canadá, ficou profundamente ofendida e furiosa comigo por eu ter qualificação demais pra vaga e tentar tirar o emprego de alguém que realmente precisasse dela. É… pois é. Além dessa vez, teve uma outra vez em uma livraria em que a gerente perguntou se eu sabia contar troco e operar a caixa registradora!  Ela acabou ficando com outra pessoa que tinha muita experiência com essa função super complexa pra não perder 10 minutos me explicando sobre a caixa.

Foi mais ou menos por aí que eu percebi que eu precisava mandar meu currículo pra exatamente a mesma função que eu tinha no Brasil, porque eles não tinham paciência pra te explicar qualquer trabalho, por mais simples que fosse. Mas claro, mandaria pra posições iniciantes porque não dá pra chegar querendo mandar em um sistema que tu não sabes como funciona e nem buscar por vagas que exigissem que a pessoa fosse um arquiteto registrado por uma instituição canadense. Vamos por partes, né?

Então, eu arrumei o meu currículo com as dicas do arquiteto e mandei ele pra 5 vagas de posições junior. Foram elas: Konecranes, James Ross, Siemens, EXCO Technologies e Canarm.

Quase todas as empresas se manifestaram em um prazo de 3 dias, menos a Canarm, que me deixou no vácuo.

Foi assim:

Konecranes: Recebi um e-mail dizendo que meu currículo foi avaliado, mas que eles precisavam de alguém com uma experiência mais específica na área. Não marcaram entrevista, mas deram uma satisfação – coisa que quando eu mandava o meu currículo no modelo brasileiro, raramente acontecia.

James Ross: Ligaram marcando uma entrevista, mas não tinham vagas abertas no momento. Eles estavam só fazendo uma “biblioteca de pessoas” pra vagas que abririam no futuro. Não fui na entrevista.

Siemens: A siemens contratou uma agência de recrutadores que me ligaram 2 dias depois de eu ter enviado o currículo (2 de fevereiro). Fizeram uma entrevista por telefone, uma entrevista ao vivo e uma última entrevista que foi meio que uma apresentação pros gerentes maiores porque, pelo que eu entendi, nessa fase, eles já tinham me escolhido. Eles demoraram cerca de 2 dias pra dar a resposta a cada passo que eu avançava.

EXCO Technologies: Ligou também e marcou entrevista pra semana que vem. Eu agradeci e cancelei, porque já tinha gostado bastante da proposta e do ambiente da siemens.

O engraçado é que aqui, depois de verem meus exemplos de trabalho (que eu trouxe pra entrevista impressos) e verem meu diploma, TODAS as perguntas da entrevista foram extremamente pessoais pra realmente saber mais que tipo de pessoa que eu era. Eles criavam situações hipotéticas que não tinham nada técnico relacionado a elas e perguntavam como eu reagiria. Eles já tinham entendido que eu saberia fazer o trabalho, eles só queriam capturar o máximo possível da minha personalidade pra entender como eu me comportaria durante o dia-a-dia. Eu, que adoro questionário  – (principalmente aqueles que a gente passava no caderno durante as aulas … que as perguntas vinham uma em cada folha e todo mundo preenchia no seu número) – fiquei até cansada de responder todas as perguntas do RH.

Quando eu saí da entrevista, depois de ter conhecido meu futuro chefe e uma colega, eu fiquei esperando muito, muito, muito mesmo que eles me ligassem de volta. São pessoas extremamente tranquilas e amigas, que trabalham juntas há mais de 10 anos e ninguém nasceu aqui no Canada. Foi um alívio quando ligaram!

No meu primeiro dia de trabalho, uma das minhas colegas me levou ao mercado na hora do almoço e comprou milhares de frutas pras minhas filhas, porque ela disse que lembra como foi chegar aqui e que esse começo é sempre difícil pra todo mundo. No outro dia, ela nos trouxe mais um monte de coisas úteis (tipo shampoo, lenços umedecidos, panelas….) e a minha outra colega disse pro nosso chefe me liberar à tarde pra eu fazer a mudança e ele insistiu que eu fosse pra casa.

Eu resumo a busca de emprego pelo indeed, completamente sem indicações ou referências, sem diploma canadense ou experiência de trabalho dentro do país a uma palavra só: SORTE. Sorte, mesmo! Ser sincero na entrevista e mostrar que tu vais ser uma pessoa boa de conviver durante a maior parte do dia das outras pessoas e que tu vais fazer o trabalho bem. Mas, no meu caso, eu acho que foi sorte desde o início (e lógico, experiência na área e preparo… afinal, sorte é quando a preparação encontra uma oportunidade!)

Ah, e eles aceitaram (e pediram) a carteira de trabalho do Brasil, viu? O que eu mais ouço nos fóruns é que a nossa carteira não vale aqui. Pra mim, valeu!

Amanhã, se der tempo e a internet tiver sido instalada, eu conto da cidade nova!

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